segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Conheça a ‘TV a gato’ do século 21

27/08/2007, ALEX SILVA/AE

Piratas, canais de TV via web personalizam a transmissão de jogos de futebol de acordo com o gosto do torcedor

http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=11685

Gustavo Miller

Em um pequeno quarto, onde mal cabem duas camas, um armário e uma geladeira, A. J. se acomoda em frente ao computador e põe o fone de ouvido sem fio. Com alguns cliques, abre-se na tela do micro a imagem de um jogo de futebol prestes a começar. A janela de seu MSN Messenger não pára de piscar e seu filho pequeno corre por todos os lados do quarto, para desespero de sua mulher, que tenta fazer de tudo para controlar o diabinho.
A. J. respira, calça os chinelos, clica no mouse e fala ao microfone do fone de ouvido. “Opa... Estamos começando mais uma transmissão aqui na AJ TV. Hoje o jogo é São Paulo e Goiás. O árbitro errrrgue a pata e apita! Bola rolando!”
Quem vê A. J. assim, falando para o monitor, não imagina que quase 2 mil pessoas o estão ouvindo naquele momento. Pois é: ele tem uma web TV do time do São Paulo, a AJ TV. Por esse canal de televisão online, A. J. transmite, via internet, todos os jogos do tricolor paulista – inclusive os fechados, da TV a cabo ou do pay-per-view.
A AJ TV não é um caso a parte. É cada vez maior o número de torcedores de futebol que cria na rede canais de seus clubes do coração. O Atlético Mineiro, por exemplo, tem a Galo Web TV; o Corinthians, a TV Coringão. O Sport, lá de Recife, possui a SportCast TV.
A idéia desses “canais alternativos” é proporcionar à maior quantidade de pessoas possível a oportunidade de ver o seu time querido em ação a qualquer momento e não ter mais que depender da programação da TV aberta ou tirar a mão do bolso para assinar o pacote pay-per-view.
O grande público consumidor das web TVs são torcedores que moram em lugares distantes de seus times do coração. “Quem vê os jogos do São Paulo é gente de outros Estados, pois lá não costumam passar na TV aberta ou fechada os jogos do tricolor”, diz A. J.
É impressionante também a audiência de quem mora no exterior. “Recebo e-mails da Noruega, Israel e Ásia, agradecendo por poderem ter assistido ao jogo do seu clube. Eu fiz intercâmbio e sei como era ficar sem ver as partidas do Atlético”, diz Eduardo, da Galo Web TV.
As transmissões são feitas em tempo real e costumam funcionar assim: primeiro, é preciso ter uma internet com conexão muito rápida de, no mínimo, 1 Mbps (megabit por segundo). Depois, é crucial ter uma placa de captura de TV instalada no computador.
O vídeo é recodificado, geralmente pelo programa Windows Media Encoder, e transformado para o formato Windows Media Video. Com a imagem “capturada” é preciso ter um software que a transmita por streaming. O mais popular é o Sopcast (www.sopcast.org), um programa P2P que permite criar canais de televisão pela internet. Feito o cadastro, é só o canal estar online para a transmissão rolar solta.
A qualidade da transmissão não chega aos pés da feita pela TV. Além disso, há o delay. Quando vi o jogo do São Paulo contra o Sport pelo Sopcast, o atraso da transmissão era de quase 2 minutos. A experiência foi engraçada, porque o vizinho, que assina pay-per-view e é são-paulino, soltava rojões quando um gol tricolor saía. Resumindo: o escanteio nem tinha sido cobrado e eu já sabia do gol.
As imagens também não são muito nítidas e o vídeo dá umas travadinhas. Isso ocorre porque, no P2P, quanto mais pessoas assistem a um vídeo, mais o arquivo é dividido. Além do mais, não são todos os brasileiros que possuem uma internet com excelente velocidade. Isso é ruim pelo seguinte: se alguém que tenha internet discada tentar ver o jogo online vai prejudicar todos os outros usuários.
“Aqui no Recife não há internet superior a 1 Mbps. Então, nossas primeiras transmissões eram lentíssimas e o pessoal reclamava muito”, comenta Shelton, do SportCast TV.
Para resolver esse problema, Shelton e seu amigo Lucas restringiram o acesso ao canal. Para poder ver os jogos é preciso se cadastrar no site deles. Já a Galo Web e o AJ TV criaram torcedores VIPs. “Muita gente queria um servidor privado para ter uma transmissão de maior qualidade. Foram os próprios torcedores que resolveram pagar de seus bolsos por isso”, comenta A. J.
Até agora, 40 são-paulinos pagam R$ 10 por mês pelo “pay-per-view” AJ TV. Já do lado de Minas, cerca de 20 pessoas tiram R$ 15 de seus bolsos para verem o galo na web
"O delay é de apenas 15 segundos. Já no aberto chega a 4 minutos”, explica Eduardo.

PIRATAS?

A. J. é o único da turma a narrar os jogos. Seu nível de profissionalismo é tamanho que às vezes uma comentarista dá pitacos sobre a partida. O narrador também deixa um e-mail e o número de um celular para que os internautas deixem seus recados. É comum durante a partida ele mandar um abraço para a mãe de alguém. No intervalo entre o primeiro e o segundo tempo tem gente que até liga para o celular e entra ao vivo para falar na transmissão.
Já as outras web TVs optam por apenas reproduzir ipsis litteris o que está sendo televisionado. “Isso não é pirataria. Se fosse, o YouTube também estaria fechado”, alega Marcelo, que passa os jogos do Flamengo pela CeloCRF, diretamente dos Estados Unidos.
Para Elton Simões, diretor do Premiere Futebol Clube (o pacote de pay-per-view do SporTV), os canais dos torcedores são pirataria. Ele diz que, ao fazerem isso, os torcedores prejudicam os próprios clubes. “Os times deixam de receber tributos pela transmissão”, diz.
“Pirataria sempre existiu, ela não é tendência tecnológica. O que está acontecendo agora é a profissionalização, não é mais aquele ‘gato’ de fundo de quintal”, continua.
Realmente, o que se vê agora é a “TV a gato” do século 21.

Um comentário:

Ernesto Mengel disse...

Puxa isso é sensacional....me pergunto como os clubes não pensam nisso.

Nota dez pra essa matéria e esses heróis torcedores.