terça-feira, 27 de novembro de 2007

STJD começa a preparar denúncia contra o Bahia

Marcelo Sant’Ana

http://www.correiodabahia.com.br/aquisalvador/noticia.asp?codigo=142311

O procurador geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Paulo Schmitt, formula denúncia para punir o Bahia pelos incidentes na Fonte Nova, acontecidos anteontem. O clube será enquadrado nos artigos 211, por falta de segurança no estádio, e 213, por invasão de campo. Os mesmos do ano passado, quando a torcida explodiu durante a derrota por 2x0 para o Ipatinga, dia 28 de outubro, também pela Série C do Campeonato Brasileiro.
Embora saiba que o governo do estado interditou a praça esportiva ainda no domingo, à noite, o procurador geral sustentou que vai pedir também a interdição desportiva. Irritado com outro “gravíssimo” acidente no prazo de um ano, Paulo Schmitt comentou parecer ver “uma novela” e que a questão da Fonte Nova não teria sido levada “muito a sério”.
“As autoridades precisam explicar o motivo para a liberação do estádio. Quem assinou o laudo de liberação tem que ser responsabilizado”, julgou. Na esfera esportiva, o Bahia pode perder até dez mandos de campo e receber multa de até R$210 mil.
O presidente da FBF, Ednaldo Rodrigues, entrou em contato com o STJD, contudo não falou com o procurador geral. “A FBF vai aguardar a posição oficial do STJD. O governador foi rápido e cauteloso e é preciso calma, pois é um sentimento de dor no futebol baiano”.
Sobre o provável novo mando de campo do Bahia no Campeonato Baiano de 2008, o dirigente foi cauteloso. “O clube vai poder escolher qualquer estádio, desde que este atenda ao Estatuto do Torcedor”, limitou-se. Expira em 10 de dezembro o prazo para as equipes encaminharem à FBF laudos técnicos de Corpo de Bombeiros, Vigilância Sanitária e Polícia Militar para os seus mandos de campo. As cópias vão para o Ministério Público.
A tendência aponta para partidas no interior do estado. Em Salvador, o Barradão esbarra no aspecto de rivalidade com o Vitória, que ainda pode decidir o preço do aluguel. “Pituaçu tem laudo para partidas de pequeno porte até a segunda divisão, fora ajustes necessários em infra-estrutura”. O Jóia da Princesa, em Feira de Santana, também deve ser descartado, pois já será mando de Fluminense e Feirense.
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Drama atravessa fronteiras
A morte de sete torcedores na Fonte Nova também foi notícia nos sítios de notícias internacionais. O jornal alemão Bild relata o “Drama no Brasil”. A matéria, acompanhada de vídeo da tragédia, conta que “60 mil fãs faziam festa quando aconteceu o problema na arquibancada” e destaca que o “estádio de 56 anos não passou por reformas estruturais”.
Questionamento semelhante faz o espanhol El País. O jornal confronta que “as autoridades não estavam a par de problemas estruturais”, embora um estudo de “engenheiros e arquitetos enfatizasse que as arquibancadas constituíam um risco particular”. Os diários esportivos espanhóis Marca e As repercutem que “já antes desta tragédia haviam sido denunciadas suas precárias condições”.
Na Itália, o La Stampa toca em tema de interesse global: “Para fazer parte da Copa do Mundo, Salvador precisa de um estádio novo”. O Washington Post e o The New York Times, dos EUA, compartilham a linha ao falar que as “sete mortes acontecessem em prazo inferior a um mês desde a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014”.
O jornal francês L’equipe deu destaque ao desastre, contudo, equivocou-se no número de mortos, ao somar “oito mortos na queda da arquibancada”. Erro compartilhado pelo irreverente e sempre polêmico diário esportivo Olé, da Argentina – “Oito mortos nos festejos do Bahia” – e pela Gazzeta dello Sport, da Itália, que acrescenta: “a Fonte Nova é um dos principais redutos do Brasil”.
O português Record escreve: “Queda de bancada provoca sete mortos no Brasil”. Na seqüência, o jornal esportivo comenta que os motivos da tragédia estariam na “sobrelotação do estádio e nas péssimas condições do recinto”. (MS)
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Diretor da Bamor critica irresponsabilidade
José Carlos Mesquita
Um dos principais diretores da torcida Bamor, Cristóvão Contreiras, classificou o acidente de anteontem, na Fonte Nova, como uma “tragédia anunciada”. Consternado com as sete mortes após o desabamento de parte da arquibancada, justamente no local onde se concentra a mais conhecida facção de torcidas organizadas do Bahia, ele declarou que houve irresponsabilidade de quem permitiu o acesso de mais de 60 mil torcedores ao estádio. “Não sei quem foi o irresponsável, mas gostaria de saber. Como ficarão os familiares desses torcedores diante dessa tragédia que abalou a todos nós? Dois que morreram são nossos colaboradores, mas ainda não identificamos”.
Sempre presente aos jogos do time do coração, Cristóvão disse que a estrutura do estádio está defasada, salientando que se fosse tomada há muito tempo a providência definitiva de interdição onde aconteceu a tragédia ninguém hoje estaria lamentando as cenas tristes vistas no domingo e que tiveram repercussão internacional. A sua expectativa é em relação ao procedimento que será tomado a partir de agora, sobretudo sobre o local onde o Bahia realizará os seus jogos.
“Na Fonte Nova não há condições, a não ser que se faça uma reforma geral, o que não acredito. A atual estrutura do estádio é um grande risco para o torcedor. O que se vê nas arquibancadas é pedaço de cimento, vigas oxidadas, etc. Teve um jogo que me desloquei até o placar e fiquei surpreso, pois ele balança muito quando os torcedores gritam e pulam. O mesmo fato ocorre na estrutura arcaica do estádio. O lado da Bamor foi interditado aproximadamente há um ano e quando liberada não apresentou quase nada de novo. Chega de fazer meia-sola onde acredito não ter mais jeito”, reclama.
O dirigente da Bamor achou que a Sudesb errou ao abrir os portões do estádio num jogo como o de ontem e também condenou a invasão do gramado após a partida e os danos que foram causados pelos torcedores mais eufóricos. “Num jogo como o de ontem, foi um grande erro liberar o xaréu (torcedor que tem acesso ao estádio e assiste aos dez minutos finais do jogo sem pagar nada). Achei que houve uma ação de vandalismo daqueles torcedores que invadiram o campo e retiraram pedaços de grama não sei com qual objetivo”.
A preocupação do dirigente é o local onde o Bahia vai mandar seus jogos com a interdição da Fonte Nova. “Se o Bahia tivesse o seu estádio próprio não passaria por isso. Com essa marca forte, que é o Bahia, tínhamos que ter um patrimônio dessa natureza, mas os dirigentes parece que ainda não perceberam isso. Está em tempo. Sem a Fonte Nova, o Bahia terá que jogar em praças alternativas, como Camaçari, Pituaçu, Catu, etc. Barradão, jamais. Nós, torcedores, não aceitaremos”.
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Acidente não é o maior
Ao contrário do que as emissoras de TV do Sul/Sudeste do país andaram divulgando em rede nacional, a tragédia de domingo passado no Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, onde sete pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas, não é a maior da história do futebol brasileiro. Emissoras do Piauí, a exemplo da TV Cidade Verde, lembraram ontem que no dia 28 de agosto de 1973, oito pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas, segundo números oficiais divulgados à época, em outro acidente, este no Estádio Albertão, em Teresina.
A data marcou a inauguração do Estádio Alberto Tavares Silva, com o jogo Tiradentes x Fluminense-RJ. Durante a partida, após os primeiros 15 minutos, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), que conduzia o presidente da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, fez vibrar a estrutura do estádio, que até hoje não teve seu projeto original concluído. Segundo relatos da época, um torcedor gritou que a estrutura estava desabando, o que provocou pânico e correria.
O resultado da correria foram mais de 300 pessoas feridas, 70 delas em estado grave, e outras oito mortas, duas delas crianças. O número de mortes é confirmado no livro Piauí – 100 anos de futebol, do jornalista Severino Filho, o Buim, e pessoas que presenciaram o acidente há 34 anos acreditam que seja maior. A existência de outras vítimas pode ter sido abafada pela ditadura militar, a quem não interessaria na época divulgar uma tragédia de maiores proporçõesPortanto, a Fonte Nova não é exemplo único de tragédias no futebol. A dor e o luto acompanharam torcedores brasileiros e estrangeiros ao longo do tempo da bola.
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ACIDENTES EM ESTÁDIOS
Eis abaixo a cronologia dos incidentes mais destacados ao longo da ampulheta do futebol
2007 - Uma pessoa morreu e outras 20 ficaram feridas durante um tumulto no Estádio Hernando Silles, em La Paz, capital da Bolívia. O incidente ocorreu porque alguns torcedores sem ingresso tentaram forçar os portões para assistir ao jogo entre Bolívar e The Strongest. Uma mulher de 35 anos morreu esmagada e a partida terminou empatada por 1x1.
Ainda este ano, o clássico italiano Palermo x Catania acabou em tragédia. A torcida do Catania entrou em confronto com a polícia. A confusão aconteceu no Estádio Massimino no dia 2 de fevereiro. Um policial de 38 anos morreu por causa de pedra lançada por um torcedor enfurecido. A revolta começou quando o jogador Di Michele fez um gol com a mão a sete minutos do fim da partida, dando a vitória ao Palermo.
2001 - No estádio da cidade de Sari, no Irã, a cobertura de uma arquibancada desabou, provocando a morte de 20 pessoas e ferindo outras 249.
No Congo, um corre-corre deixou sete mortos e 51 feridos num estádio em Lubumbashi. O jogo era entre dois times tradicionais na região: Lupopo e Mazembe.
O clássico Kaiser Chiefs e Orlando Pirates, em Johannesburgo, capital da África do Sul, deixou 47 mortos e 150 feridos. Por causa do tumulto, o jogo no Estádio Ellis Park foi interrompido aos 33 minutos do 1º tempo.
2000 - O alambrado do Estádio São Januário desabou durante o jogo entre São Caetano e Vasco, no Rio de Janeiro, na final da Copa João Havelange. O acidente deixou 140 pessoas feridas. A partida foi cancelada.
1992 - Na final do Campeonato Brasileiro, disputada entre Flamengo e Botafogo, o gradil da arquibancada do Maracanã, no Rio de Janeiro, caiu sobre as cadeiras azuis. Três pessoas morreram.
1989 - Em Sheffield, na Inglaterra, 95 pessoas morreram esmagadas antes do início da partida entre o Liverpool e o Nottingham Forest. O tumulto começou por causa da superlotação no estádio de Hillsborought. Outro torcedor, que estava sendo mantido vivo por aparelhos, morreu quatro anos depois.
1985 - Um incêndio na arquibancada principal do Estádio de Bradford, na Inglaterra, matou cerca de 55 torcedores e feriu outros 200.
A superlotação do Estádio Olímpico da Cidade do México deixou um saldo de oito mortos e 50 feridos.Três semanas depois do incidente na Inglaterra, 39 pessoas morreram no estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica. As equipes Juventus, da Itália, e Liverpool, da Inglaterra, preparavam-se para entrar em campo quando o tumulto começou.
1982 - Em Moscou, na antiga União Soviética, 340 pessoas morreram durante uma partida de futebol.
1974 - No Cairo, Egito, uma multidão invadiu um estádio com capacidade para 40 mil pessoas. O tumulto deixou 48 mortos e 47 feridos.
1973 – Estádio Albertão, em Teresina, com oito mortos e 300 feridos. Veja realato no texto principal.
1971 – Foi no dia 4 de março de 1971, na reinauguração da Fonte Nova. O Bahia jogaria a primeira partida contra o Flamengo e o Vitória faria a segunda contra o Grêmio de Porto Alegre. Dizem que mais de 112 mil pessoas estavam lá. Até nas marquises tinha gente. Mas o público (pagante) divulgado foi de 94.972 pessoas (a capacidade oficial era de 96.640. O jogo inicial foi tudo bem. O tricolor ganhou por 1x0, a torcida se agitou e as arquibancadas balançaram, mas ninguém ligou. Por volta das 19h, no meio do segundo tempo, o Vitória empatava com o Grêmio por 0x0, quando tudo começou.
Um boato de que o estádio estava desabando gerou pânico, as pessoas começaram a pular da parte superior para baixo “como se fosse uma cachoeira humana”, conforme registros da imprensa na época. Em segundos, jogadores do Vitória e do Grêmio “desapareceram” no gramado, misturados à multidão que invadiu o campo. Resultado: dois mortos e 2.086 feridos.
1968 - Focos de incêndio no Estádio River Plate, em Buenos Aires, na Argentina, provocaram pânico nos torcedores. Muita gente não conseguiu deixar o local porque uma das saídas estava fechada. O acidente deixou 80 mortos e 150 feridos.
1964 - No jogo entre Peru e Argentina, no Estádio Nacional de Lima, no Peru, 300 torcedores morreram e 500 ficaram feridos.
1946 - Na província de Bolton, na Inglaterra, 33 pessoas morreram e 50 ficaram feridas depois da partida entre o Bolton Wanderers e o Stoke City.
Fonte: Globo.com/Guia dos Curiosos

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