terça-feira, 1 de maio de 2007

É apenas uma questão de respeito

por Leda Maria da Costa (Vasco, UTB), 01.05.07

Às vezes o machismo no futebol não é nada disfarçado. Há cerca de dois meses atrás, o então técnico do Corinthians, Emerson Leão, irritado por ter sido abordado no aeroporto de Cumbica pela jornalista Marília Ruiz da TV Record, não hesitou em lançar-lhe uma grosseria ímpar ao perguntar se ela o estava perseguindo porque queria ir ao motel com ele. Certamente, o treinador tinha o direito de não atender a jornalistas que o procurassem fora do seu ambiente de trabalho, mas nada justifica uma agressão verbal tão constrangedora lançada na direção da repórter.
Entretanto, não era a primeira vez que Leão manifestava tamanho machismo. Durante o jogo Corinthians X Noroeste, ao reclamar da marcação de impedimento assinalada pela assistente Aline Lambert, o técnico soltou a frase: "Tá vendo, coloca mulher para apitar” http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/0,,AA1493297-4274,00.html). Há dois anos atrás, o treinador Tite, que comandava o Corinthians, também protagonizou episódio parecido ao afirmar que “mulher não pode apitar jogo de futebol de alto nível” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0803200624.htm). Ao invés de apenas reclamar de possíveis erros cometidos pela árbitra Silvia Regina de Oliveira, Tite preferiu atribuí-los ao fato de Silvia ser mulher.
É importante lembrar que as três mulheres são profissionais de futebol e para que julguemos ou manifestemos insatisfação com algum profissional, o ideal é que recorramos a critérios relacionados à competência. E competência não é atributo próprio da mulher ou do homem, mas é uma qualidade que depende da formação, da habilidade pessoal e da capacidade que cada um de nós tem de desenvolver, do melhor modo possível, nossas atividades.
Entretanto parece que no futebol, nada disso é válido. Por isso, tanto Leão quanto Tite não titubearam em relacionar um mau desempenho profissional com o fato dos profissionais em questão serem mulheres. Essa escolha revela uma atitude machista, afinal quando árbitros, jornalistas ou jogadores cometem algum erro, não é comum ouvirmos: “Viu só, tinha que ser um homem!”
As profissionais de futebol precisam ser respeitadas enquanto tal. E esse respeito pressupõe que tanto seus erros não sejam superdimensionados pelo fato de serem mulheres ou minimizados pelo mesmo motivo. Afinal, é muito comum ouvirmos em transmissões esportivas um certo excesso de zelo e um certo constrangimento que surge sempre que se faz necessário criticar a atuação de alguma juíza ou bandeirinha, por exemplo. Esse constrangimento se justifica, pois muitas pessoas – inclusive mulheres – confundem crítica com preconceito. Mas há uma diferença muito grande entre uma coisa e outra. A crítica argumentada é benéfica, conduz ao diálogo, principalmente se o criticado reconhece seus erros e busca não mais repeti-los. O preconceito, ao contrário, é ofensivo e não passa de um juízo fundado na intolerância e em uma imagem preconcebida do outro.
É do machismo e do preconceito que precisamos nos despir para que a profissional de futebol tenha liberdade para desempenhar sua função. E essa liberdade, por sua vez, não pode ser confundida com uma espécie de superproteção que a isente de responsabilidade. As profissionais de futebol não precisam sofrer perseguição e, tampouco, proteção exagerada. Basta o mínimo de respeito.

Um comentário:

Leonardo disse...

Muito bom seu artigo, Leda. Acho que você deveria mandá-lo também para jornais de grande circulação (se já não o fez). Ele também deveria ser impresso e afixado nos vestiários de todos os grandes clubes do Brasil. Meus parabéns pela clarividência e discernimento.